close

Um dia de exageros

Luiz Carlos Rodrigues

A cidade de Itu, em São Paulo, tem a fama do exagero. Parece que está na cultura do povo de lá a mania de aumentar tudo.

No início dos anos 90, aqui em Goiás, a cidade de Itaguari, próxima a Goiânia, teve também um dia de exageros. Não me lembro bem a data, mas sei que foi no segundo mandato do governador Iris Rezende Machado, a partir de 1991. Na Presidência da República estava Fernando Collor de Mello.

Collor resolveu visitar a cidade de Itaguari a convite do governador Iris. Na época, o presidente Collor ainda era novidade, com aquele seu carisma odiado por uns e amado por outros. Que o ex-presidente Collor é um sujeito cheio de exageros ninguém duvida, e na pequena cidade goiana ele desfilou uma série deles, e igualmente outras autoridades estaduais, municipais, grande parte do povo da imprensa, enfim, todos contribuíram para um dia de exageros em Itaguari.

A cidade nesse dia recebeu uma grande multidão, além de sua capacidade. Era tão grande a aglomeração que o comércio não foi capaz de atender a todos em suas necessidades básicas. Teve gente que passou fome com dinheiro no bolso, pois tudo o que tinha nos botecos, lanchonetes e similares foi consumido rapidamente.

Na agenda política, mais exageros. O governador, acompanhado de Collor, inaugurou um monte de coisas: posto de saúde, casas populares, hospital, asfalto, assinou ordem de serviço para várias obras, entrou numa vala no meio da rua com uma picareta e furou buracos com os peões, abraçou e foi abraçado pelo povo, e Collor junto, mas exageradamente apressado e sem muito diálogo com assessores e outros que o rodeavam. Entrou mudo e saiu calado da cidade.

Com toda a correria, Collor perambulou pelas ruas de Itaguari desfilando com o seu jeitão empinado, não atendendo ninguém, nem mesmo com um simples aceno de mão. A imprensa, como cães vira-lata – e eu me incluo no meio, pois trabalhava para o Diário da Manhã –, estava correndo atrás do Collor tentando entrevista. Um jornalista mais afoito furou todo o cerco de segurança, fez uma pergunta e chegou o gravador bem no narigão do presidente, mas ele não deu a mínima. Continuou andando, quase correndo, e esse mesmo jornalista, andando de lado, feito caranguejo, levou um tropeção e se esparramou no chão, de gravata e tudo. Pior: Collor só desviou, ficando meu amigo lá no chão tentando juntar o que sobrou do gravador.

Mas o exagero maior foi registrado antes de Collor chegar a Itaguari. No aeroporto, muita gente. Lá estava também o staff do presidente. Muitos seguranças, homens do Exército armados com fuzis e metralhadoras, jipes com bazucas, um verdadeiro aparato de guerra esperando o helicóptero que vinha de Brasília trazendo o presidente.

De repente, no horizonte, surge um ponto qualquer. Alguém gritou: “Lá vem o presidente.” Começaram a correria e os preparativos. Alguém grita de novo: “Não, não é o presidente, é outra aeronave.” A segurança se agita: “Esse avião não pode descer aqui na pista, pode ser algum atentado contra o presidente.” A nave se aproxima lenta, mas se aproxima. Alguém grita de novo: “É um ultraleve”… E era mesmo. O piloto carregava um objeto cilíndrico de metal que reluzia com o sol. “Pode ser uma bomba”, gritaram de novo. Foi uma correria geral por parte da segurança. Derruba, não derruba o ultraleve, os carros de segurança se enfileiraram na pista, não dando espaço para pouso.

Com aquela loucura, o piloto do ultraleve, sem saber o que fazer, deu uma guinada e aterrissou numa pista paralela cheia de buracos e arbustos. Antes de parar, a segurança corre para cima do ultraleve, armas em punho, piloto apavorado. A imprensa, louca por uma confusão, dispara também atrás de uma big matéria.

Quando chegamos próximos ao ultraleve, vimos um piloto assustado sem entender nada. Era um capiau que trazia o estranho objeto metálico, cilíndrico e reluzente, que do alto parecia uma bomba. Era outro exagero: um latão de leite sendo transportado de avião para a cidade.

Um dia de exageros

Luiz Carlos Rodrigues

A cidade de Itu, em São Paulo, tem a fama do exagero. Parece que está na cultura do povo de lá a mania de aumentar tudo.

No início dos anos 90, aqui em Goiás, a cidade de Itaguari, próxima a Goiânia, teve também um dia de exageros. Não me lembro bem a data, mas sei que foi no segundo mandato do governador Iris Rezende Machado, a partir de 1991. Na Presidência da República estava Fernando Collor de Mello.

Collor resolveu visitar a cidade de Itaguari a convite do governador Iris. Na época, o presidente Collor ainda era novidade, com aquele seu carisma odiado por uns e amado por outros. Que o ex-presidente Collor é um sujeito cheio de exageros ninguém duvida, e na pequena cidade goiana ele desfilou uma série deles, e igualmente outras autoridades estaduais, municipais, grande parte do povo da imprensa, enfim, todos contribuíram para um dia de exageros em Itaguari.

A cidade nesse dia recebeu uma grande multidão, além de sua capacidade. Era tão grande a aglomeração que o comércio não foi capaz de atender a todos em suas necessidades básicas. Teve gente que passou fome com dinheiro no bolso, pois tudo o que tinha nos botecos, lanchonetes e similares foi consumido rapidamente.

Na agenda política, mais exageros. O governador, acompanhado de Collor, inaugurou um monte de coisas: posto de saúde, casas populares, hospital, asfalto, assinou ordem de serviço para várias obras, entrou numa vala no meio da rua com uma picareta e furou buracos com os peões, abraçou e foi abraçado pelo povo, e Collor junto, mas exageradamente apressado e sem muito diálogo com assessores e outros que o rodeavam. Entrou mudo e saiu calado da cidade.

Com toda a correria, Collor perambulou pelas ruas de Itaguari desfilando com o seu jeitão empinado, não atendendo ninguém, nem mesmo com um simples aceno de mão. A imprensa, como cães vira-lata – e eu me incluo no meio, pois trabalhava para o Diário da Manhã –, estava correndo atrás do Collor tentando entrevista. Um jornalista mais afoito furou todo o cerco de segurança, fez uma pergunta e chegou o gravador bem no narigão do presidente, mas ele não deu a mínima. Continuou andando, quase correndo, e esse mesmo jornalista, andando de lado, feito caranguejo, levou um tropeção e se esparramou no chão, de gravata e tudo. Pior: Collor só desviou, ficando meu amigo lá no chão tentando juntar o que sobrou do gravador.

Mas o exagero maior foi registrado antes de Collor chegar a Itaguari. No aeroporto, muita gente. Lá estava também o staff do presidente. Muitos seguranças, homens do Exército armados com fuzis e metralhadoras, jipes com bazucas, um verdadeiro aparato de guerra esperando o helicóptero que vinha de Brasília trazendo o presidente.

De repente, no horizonte, surge um ponto qualquer. Alguém gritou: “Lá vem o presidente.” Começaram a correria e os preparativos. Alguém grita de novo: “Não, não é o presidente, é outra aeronave.” A segurança se agita: “Esse avião não pode descer aqui na pista, pode ser algum atentado contra o presidente.” A nave se aproxima lenta, mas se aproxima. Alguém grita de novo: “É um ultraleve”… E era mesmo. O piloto carregava um objeto cilíndrico de metal que reluzia com o sol. “Pode ser uma bomba”, gritaram de novo. Foi uma correria geral por parte da segurança. Derruba, não derruba o ultraleve, os carros de segurança se enfileiraram na pista, não dando espaço para pouso.

Com aquela loucura, o piloto do ultraleve, sem saber o que fazer, deu uma guinada e aterrissou numa pista paralela cheia de buracos e arbustos. Antes de parar, a segurança corre para cima do ultraleve, armas em punho, piloto apavorado. A imprensa, louca por uma confusão, dispara também atrás de uma big matéria.

Quando chegamos próximos ao ultraleve, vimos um piloto assustado sem entender nada. Era um capiau que trazia o estranho objeto metálico, cilíndrico e reluzente, que do alto parecia uma bomba. Era outro exagero: um latão de leite sendo transportado de avião para a cidade.