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Festa de Trindade

Um tio meu, que era muito farrista, aquele que gostava do cheiro das cidades, contou-me a primeira vez em que ele e um grupo de amigos foram visitar a Festa de Trindade, em Goiás. Foi um passeio muito tumultuado, uma espécie de aventura, tantos foram os acontecimentos e os detalhes. Com seu jeitão caipira, igual meu avô, de fala mansa e pausada, fez a seguinte narrativa:

– Numa ocasião, no começo dos anos 50, saímo dos cafundó de Catalão pra festa de Trindade. Nóis era quato. Eu, o cumpade Mané Belo, o Oripão e o Varisto.

Esse assunto já tava seno cumbinado desde nóis mais novo. Cada um tinha uma promessa. O trato parece que não sei pur quê era de ninguém contá a tal promessa. Acho que era purque os mais véio custumava num contá as coisa que prometia, principalmente quando a prova invurvia assunto de reza e riligião, segredo. Enfim, trem de gente sistemática.

A viagem até que foi boa. Nóis foi até Goiandira e de lá pegamo outro trem da Estrada de Ferro Goiás, que tava ainda novinha em fôia, ligando Minas, a partir de Araguari, a Goiás até Goiânia.

Como a viagem era longa e demorada, inchemo as capanga de matula e saímo depois de muita recumendação dos véio. Os cumpanhêro, cada um tinha seu jeito. O Oripão era o que tinha mais recurso, ou seja, uns cobrim mais avurtado. O pai tinha umas terra boa, muita vaca e a famía vivia forgada. Esse Oripão tinha istudado fora e a mania de sabê mais do que a gente.

O Varisto, era só ele de home na casa onde morava. O resto era muié. A mãe e as irmã. De nóis quato, era o mais calado, mais num disgrudava da turma seja lá o que fosse.

Cumpade Mané Belo tinha raça de nêgo. O pai era branco e a mãe era nêga. Ele saiu duma cor isquisita, um sarará meio ganga. No tempo de minino, era o capeta em figura de gente. Quando ficô mais véio, continuô. O povo num gostava muito dele. Principalmente, os mais véio. Uns falava qui ele num valia um cibazoli derrancado. Nóis num via defeito. Nos pagode, a farra era grossa. Ele custumava dispensá uma môça branca só pra dançá cuma nigrinha. Enfim, era nossa vidinha de solteiro.

Bão. Cum relação a tal viagem, depois de muito tempo acabamo chegano a Goiânia e depois fretamo um carro até Trindade. Na rua, o povo tava qui nem furmiga. Depois de muita procura, achamo uma pensão. Discarregamo os trapo e pagamo adiantado. Sinão, rá, num tinha negoço. Eu já fiquei achano aquilo isquisito, mais fazê o quê? A pressa era tomá bãe e saí.

O primeiro a entrá no tal banhêro foi o cumpade Mané Belo. Nóis lá isperano. Quando é fé, iscutamo um berro e um baruião dele caino. Batemo na porta e só iscutamo ele gungunano. O Oripão meteu o pé na porta, mais ele já tinha levantado e disse que a tal água quente num saía. Quando foi fuçá nos fiu, acabô tomano choque.

Nesse dia ninguém jantô na tal pensão. O primeiro que invistiu na sala viu um tanto de gente falano baxim e rino da bestera. Saimo de fininho os quato, aumentano o furmiguero na rua.

Pareceno besta, andamo, andamo e vimo muita gente, muita coisa e depois entramo na igreja. Cada um rezô e pagô sua promessa. Eu só vi o cumpade Mané Belo tirano uma trancinha sarará do borso e colocano no altar do Divino Pai Eterno.

Eu acho que essa trança era dele quando minino. Os pai antigo tinha mania de dexá o cabelo da gente crescê. Só sei que ele era muito duente. Nesse tempo a mãe fêis a tal promessa: se sarasse, cortava o cabelo dele pra levá como promessa pra Trindade.

Depois da igreja, fomo caçá alguma coisa pra cumê. Achamo um bar muito grande, cheio de gente. Lá dento uma leréia. Um baruião danado. Uns cabôco lanhado, mitido a artista cantano uns trem diferente. Só sei qui era umas moda intojada e ninguém tava prestano atenção. Arranjamo uma mesa e pidimo cerveja. Cada um tomó uma guia antes. Diabo de pinga forte. Acho qui era ristilo puro.

Depois de muito ristilo e cerveja, até qui o lugá num ficô dos ruim não. Tinha muita gente ali. Gente de todo jeito. Cum fome, saímo da mesa e fômo até o barcão. Em cima dele tinha uma caxa de vidro cheia de coisêra. Frango frito, pelota, custela, mandioca e uns trem de massa. Achei aquilo bunito e perguntei o nome. O rapais que atindia falô qui era ispirra. Cada um pediu e já logo cumi duas. Aquilo paricia um trabicêro chei de carne. Cunversa vai, cunversa vem, eu falei que gostei da tal ispirra. Foi aí que o Oripão cumeçô:

– Num é ispirra não. É esfirra!

– Qui esfirra qui nada. Eu iscutei o rapais falano que é ispirra, retruquei.

O Oripão vortô a insistí.

Eu também insistí: – Dexa de sê burro. Saiu esfirra porque o rapais do barcão é fanhoso. Mais o nome é ispirra. O Oripão acabô ficano calado. Acho qui confundiu tudo por causa do baruião danado qui os artista intojado tava fazeno. No fundo eu concordei que o trem chamava memo é esfirra. Mais eu tinha que quebrá o gogó dele. Mais ele não ficô satisfeito e me perguntô:

  • Cumé que chamava aquele caxote de vidro em cima do barcão?

– Sei lá, rispundi. O Oripão veio na iapa e falô:

– Chama estufa.

Ninguém falô bulacha.

No bar, o tempo passava. Som alto. Mais ristilo. Mais cerveja. O Oripão pidia cada uma pro rapais do barcão chamano a garrafa de loira suada. Achei o nome até bunito. Toda vêis qui o rapais abria uma eu iscutava a loira suada fazeno um pissiu pra mim. Era o som do gáis iscapano na tampinha. Pissiu… Num sei se aquele pissiu era me convidano pra enchê mais o casco ou se era danano com a gente. Pissiu… Pissiu… Pissiu…

Lá pelas tanta, o cumpade Mané Belo levantô e foi até o mêi do buteco cassano um lugá pra mijá, um miquitório. No camim, bateu o zói num nigrim ruliço, pindurado no peito duma negona sacudida, assim duns vinte ano.

Cumpade Mané Belo parô. Pregô o zói na mãe e no nigrim que tirô a boca do mamá da nêga. O leite caiu na cara do nigrim qui nem chuvêro. Só Deus sabia o que se passava na cabeça do cumpade Mané Belo, mais eu já imaginava: o tempo dele minino, a mãe preta, as môça da roça qui ele gostava de dançá, aquele mamá preto tufado de leite, o leite caino na cara do nigrim igual chuvêro, o chuvêro que dava choque. Enfim, o choque qui o cumpade Mané Belo deve tê levado veno aquele mamazão lumiento iscancarado e tufado de leite. Cumpade Mané Belo continuava ali parado.

Mais ao lado, um negão de pé perto do barcão oiava também no cumpade Mané Belo. Dei uma oiada de cima imbaxo no negão. Paricia um toco de roça nova. Um toco de angico firme e quemado pelo fogo. Eu já tava pressintino o pió. Alguma coisa ruim.

O negão disapregô do chão. Cum copo lavrado de pinga, virô aquilo no quêxo qui nem água. Cuns dois passo, tava renti com o cumpade Mané Belo e já foi berrano:

– Ganzepe fidumaégua. Nunca viu o zôto mamá não?

Só falô isso e sentô aquela mãozona preta, que mais paricia uma marrêta, no pé da orêia do cumpade Mané Belo, qui ele tocô piorra longe e isparramô no chão.

Cumpade Mané Belo, qui nunca apiô dum 30, levantô do chão, infiô a mão na cintura e, tonto igual uma cabaça, infumaçô aquilo tudo. O negão virô uma purga no chão tentano iscapulí e o cumpade Mané Belo tentano catá ele no tiro. Era aquela montanha preta que rolava e pulava igual um gato e que acabô iscapano pelos fundo do buteco manquitolano. O povo abriu no mundo. Nóis viramo um risco. O difícil era andá dipressa, com a pança cheia de cana.

No camim da pensão, no pensamento, concordei com o Oripão que aquele caxote de vidro chamava memo istufa, porque eu tava istufado também de esfirra.

Uma vêis na pensão, fomo durmi. No outro dia, nada de dar sopa. De madrugadinha fomo imbora. Ficamo mais uns dia em Goiânia e depois siguimo viagem de vorta.

Como a gente tava por conta memo de viajá, o cumpade Mané Belo convenceu nóis de passá um dia numa cidade do interior, na chamada região da Estrada de Ferro, purquê ele quiria cunhecê uns parente qui a mãe lhe deu o endereço pra visitá. Cumpade Mané Belo não conhecia esses parente.

Paramo na tal cidade e procuramo o tal endereço. Achamo. Saiu uma senhora bem morena, de uns 80 ano. O cumpade Mané Belo se apresentô e ficô sabeno que a tal senhora era sua vó.

Uma vez todos apresentados, sentamos num banco da sala quando a mulher explicô que seu filho, tio do cumpade Mané Belo, tava no quarto sendo cuidado pela sua neta. É que os dois tinham ido à festa em Trindade. O filho tinha se invurvido numa briga em um buteco, tinha levado um tiro no pé, mais qui tava tudo bem.

Foi um balde d’água em todo mundo. Antes de saí correno, o negão apareceu na porta do mêi com uma bengala e amparado pela filha, a tal mãe do nigrim. Ficamo todos em silêncio até qui o negão falô:

  • Seu ganzepe fidumaégua, ocê tem memo a mão manêra, hem? Quase me matô.

Cumpade Mané Belo respondeu:

  • Quem quase morreu foi eu com essa sua mãozona pesada.

Depois disso se abraçaram e fizeram as pazes como tio e sobrinho e, no final, fomos embora sem o cumpade Mané Belo, que ficô de vez na cidade e se ingraçô com a prima que era mãe solteira e acabaram se casano.