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Tomando café

Nos anos 60, em plena ditadura militar, Catalão teve um prefeito conhecido pelo seu dinamismo, rigidez para com a coisa pública, um homem de grande caráter, pessoa do bem, mas que não levava e não leva até hoje desaforos para a casa. O prefeito não era muito de freqüentar gabinete. Gostava mais de fiscalizar as obras pela cidade cara a cara, buscando erros e apontando soluções. Queria cumprir o seu trabalho, não importando muito com a ideologia política. Para ele, o povo estava acima de picuinhas políticas. O negócio era trabalhar e disso não abria mão.

Além das tarefas de suas equipes na zona urbana, naquela época ele já se preocupava com os graves problemas da zona rural, entre os quais, as péssimas condições das estradas. Problemas esses encontrados até hoje em todo o País.

Tentando amenizar a situação, o prefeito determinou que patrulhas mecanizadas vasculhassem a zona rural consertando pontes e fazendo o que fosse possível para melhorar as estradas esburacadas. Essa era também uma de suas grandes preocupações e ele cobrava muito das equipes.

Certo dia recebeu uma denúncia: ficou sabendo que alguns peões que trabalhavam nas chamadas patrulhas mecanizadas estavam bebendo em botecos na beira da estrada na hora do trabalho. Ficou uma fera com a notícia. Não esperou mais nada. Como não deixava nada para depois, foi pessoalmente verificar essa denúncia. Saiu sozinho e, antes de chegar ao acampamento dos trabalhadores, deixou a caminhonete longe e foi a pé para não causar suspeita e nem chamar atenção.

Quando pisou na porta de entrada do boteco, lá estavam os peões. Todos folgados, tomando pinga e cerveja. Assim que notaram o chefão, ficaram brancos de medo. O prefeito parou, cruzou os braços e ficou observando. Teve um peão que estava de pé ao lado do balcão, com uma copada de conhaque na mão. Quando viu o prefeito, pensou rápido e tentou despistar. Com grande presença de espírito, balançou o copo e soprou o líquido como se estivesse tomando café e ainda teve a cara-de-pau de pedir ao vendeiro um pedaço de bolo para acompanhar. E o prefeito ali observando. A rapaziada continuava atônita e o cidadão lá, rente ao balcão, sacudindo o copo, tomando o conhaque e comendo o bolo. Assim que acabou, o prefeito disse:

– É pra todo mundo sair daqui agora, passar no acampamento e assinar o aviso prévio, inclusive o senhor que está no balcão tomando café, virando-se para o peão espertinho que estava embuchado e com os olhos em brasa.