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Menos um…

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O pessoal da cidade grande sempre exerceu um fascínio sobre o coitado do roceiro. Este gosta do lugar onde nasceu, mas volta e meia a maioria sempre pensa na possibilidade de um dia se mudar para a cidade, criar seus filhos e, depois, quem sabe, retornar ao local de origem com um pé-de-meia bem-feito, os filhos doutores e terminar o resto dos dias ali, gozando das delícias naturais que uma casa na zona rural pode proporcionar para quem não precisa mais correr atrás de um meio de vida.

Nos anos 60, na minha região, muita gente se mudou da roça para a cidade e outros tantos da cidade interiorana para a capital do Estado. No nosso caso, sendo estudante, a justificativa era grande no que se refere à busca de outros centros, já que a universidade estava ainda muito longe de chegar ao interior.

Nas férias e nos prolongados fins de semana, não dava outra: todos os amigos de Catalão tomavam o trem em Goiânia rumo a nossa cidade e de lá para a zona rural em busca de mais amigos, namoradas, primas, parentes, bailes, moda de viola, jogo de truco, pescaria, etc.

Nas fazendas, a prosa de visitantes e visitados não era outra senão indagações e respostas sobre a vida na cidade grande. Lembro-me do tio João Inácio, que volta e meia tinha um rompante de querer se mudar com a família para a capital. Apesar dos conselhos dos parentes, o velho João Inácio matutava sempre essa idéia.

Certo dia, ele quis saber tudo. Como era Goiânia, custo de vida, diversão, relacionamento com as pessoas, pois ouvia dizer que na cidade ninguém se importava com o outro, etc. Tio João Inácio tinha lá seus predicados. Apesar da pouca cultura, era dotado de um humor natural, raciocínio rápido e não ficava satisfeito com determinadas respostas, sempre querendo saber mais.

Certa vez, falando sobre a cidade grande, a gente comentava:

– Pois é, tio. Lá em Goiânia a vida é muito corrida. A gente não tem tempo pra nada. Se gasta muito para sobreviver. Mas isso a gente tira de letra. O que não dá para tranqüilizar é a falta de segurança. A violência na cidade grande é coisa de louco. A gente não tem sossego. Toda hora tem assalto, roubo, pancadaria e morte. Imagina o senhor que lá em Goiânia se mata uma pessoa por motivo fútil…

Essa palavrinha, fútil, mexeu com a cabeça do tio João Inácio. E ele perguntou:

– O quê? Quer dizê que lá na cidade a gente não pode nem sortá um fúti que a gente morre? Deus me livre, meu fio. Cê quê sabê, vô ficá queto aquí memo…

Luiz Carlos Rodrigues – Jornalista