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Puxão de orelha

Nos anos 50, o gado da moda era o zebu, na região de Catalão, a exemplo de outros lugares do País. Os fazendeiros estavam deixando de criar o chamado “pé-duro”, também conhecido como “curraleiro”, e buscando uma raça melhor definida. Essa raça badalada era o gado gir, com suas enormes orelhas. Alguns fazendeiros investiam nesse tipo de animal visando apurar seu plantel. Isso não significava, porém, que outros criadores não tivessem recursos. Tinha gente com muito gado no pasto tirando leite e criando-o para corte. Só que não tinha entrado ainda na onda do zebu.

Um desses criadores era Zeca Martins, com fazenda numa região próxima onde hoje se localiza o município de Davinópolis. Certo dia, seu Zeca recebeu a visita de um comprador de gado. Era o senhor Dorival, mais conhecido como Dori, um tradicional comprador de gado na região. Não criava nada. Vivia de fazenda em fazenda comprando e vendendo, principalmente, gado de corte para as charqueadas.

Seu Zeca tinha gado para vender e seu Dori estava ali para comprar. Os animais disponíveis foram separados nos currais e o negócio começou a tomar rumo. Dori olhava um lote, olhava outro, separava aqui, rejeitava outro lote ali, e seu Zeca Martins atrás, dando seus preços. Nesse lote o preço é “x” por cabeça, naquele outro eu quero “y”.

Depois de algum tempo, seu Dori começou a tecer alguns comentários sobre o gado. Como todo comprador, não evidenciava muito a qualidade dos animais, buscando, com isso, preços mais baixos.

– É, seu Zeca. Eu isperava um gado mais liso. Os animal num tão muito gordo, os garrote não tem uma traseira boa, isso num dá muita carne de primera. Tem animal que já passô da época de matá e num tem mais de 13 arrôba. Tem muita coisa que mais parece fio de tatu com cobra, sem raça definida.

E, assim, Dori continuou com um rosário de defeitos contra o gado do seu Zeca, que se defendia como podia. Porém, calmo, pois precisava vender, o jeito era agüentar as críticas.

A certa altura, depois de muito falar sem fazer nenhuma oferta, Dori arrematou com o seguinte comentário, comparando o que via com o gado da moda, que era o gir zebu:

– É, seu Zeca. Além de tudo que eu já falei, ainda tem mais uma coisa: o seu gado tem a orêia muita piquena. É um gado fraco para cumérço.

Essa foi a gota d’água para o seu Zeca Martins, que perdeu a paciência, e disse:

– Óia, seu Dori. O sinhô vai me discurpá, mais num vai dá negoço não. Acho que meu gado num tá te sirvino. Intão dexa como tá. Ota coisa: o sinhô falô esse negoço aí de orêia piquena, vai me discurpá de novo, mais eu nunca vi ninguém chegá num açôgue e pidi um quilo de orêia.


Luiz Carlos Rodrigues – Jornalista