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O CAFÉ E AS “BUTINAS”

O crescimento das lavouras no Brasil nos anos 70 foi interessante, porque o cerrado passou a ser também uma opção. Os fazendeiros, até então, só faziam “roças” com derrubadas de matas, queimas de galhos e tocos para o plantio, em seguida, nas chamadas terras de cultura. A Embrapa foi a grande responsável pelas pesquisas, visando o aproveitamento dos cerrados.

Na região rural do Barreiro, em Catalão – Goiás, muitas fazendas situadas à beira da estrada de ferro começaram a revirar o cerrado transformando-o em lavouras. Um vizinho do meu avô, de nome Zé Caixeta, resolveu inovar também. Porém, não tinha recursos financeiros suficientes e pensou num empréstimo bancário. Outro vizinho, João da Odila, tido como pessimista, quis tirar Zé Caixeta de ideia, enchendo sua cabeça de conselhos negativos.

– Óia aqui, Zé, esse negoço de impréstimo no banco num é boa coisa não. Óia, quando esse povo cumeçá a cobrá a dívida, cê vai pená. O banco te toma as terra, as vaca, os porco, as galinha, depois sua ropa e remata nas butina. Cê vai ficá sem nada, disse o negativo João da Odila.

Acontece que Zé Caixeta estava determinado porque viu outro vizinho começar a ganhar dinheiro. Sem conseguir convencer o Zé, João da Odila jogou mais uma praga:

– Cê qué, intão vai. Num isqueça que ocê vai ficá sem as butina.

Chegando a Catalão, rumou para um dos bancos e foi buscar informações. No primeiro que entrou, esperou um pouco e logo o gerente o chamou para conversar. Zé Caixeta sentou-se e foi travado o seguinte diálogo:

– Então o senhor quer um empréstimo? O que o senhor pretende com o dinheiro?, perguntou o gerente.

– Pois é, sô. Tô pensano em apruveitá um taião de cerrado e sobrando um dinherim, quero miorá meu gadim de leite, disse Zé Caixeta.

– Olha, tudo bem. Mas o senhor tem que trazer todos os documentos pessoais, escritura da fazenda e um projeto elaborado por um técnico credenciado, inclusive com planilha de custos pra gente abrir um processo, informou o gerente.

– Mais sô, cumo abri processo se eu ainda num peguei dinhêro e num tô deveno?, argumentou Zé Caixeta.

– O processo, seu Zé, não é cobrança jurídica. É uma forma de encaminhar toda a papelada, disse o gerente, e, para adoçar a prosa, pediu que a secretária servisse um café para o cliente. Ela levantou-se imediatamente e, chegando perto do Zé Caixeta, perguntou:

– O senhor prefere café “caputino”?

– Cá butina? É claro que prifiro tomá café cá butina! Quem sabe na ôta veiz se eu tivé deveno o banco, intão vô bebê café discarso, disse ressabiado.

É que o Zé era meio surdo e com os péssimos conselhos do João da Odila na cabeça, entendeu errado a oferta da secretária.

Luiz Carlos Rodrigues – Jornalista